FRANCISCO DUARTE MENDES (1922 - 2017)
Cidadão antifascista, com uma
agitada vida de luta e perseguições pela PIDE. É julgado duas vezes no Tribunal
Plenário da Boa-Hora. Durante 10 anos, viveu entre o Aljube, Caxias e Peniche,
ora a cumprir as penas que lhe foram sendo atribuídas, incluindo as famigeradas
medidas de segurança, ora a aguardar julgamento. Prestes a ser preso em casa,
foge à PIDE e parte para o exílio.
Francisco
Duarte Mendes nasceu em Torres Novas, a 18 de Outubro de 1922, filho de José
Duarte Júnior e Margarida Mendes. Era torneiro de metais quando, ainda jovem,
se envolvia em actividades da Oposição contra a Ditadura. Foi detido pela
primeira vez em 1947 (1) e, a partir de então, privado de liberdade durante uma
década, vítima de uma sequência de arbitrariedades da polícia política e dos
tribunais do regime fascista. Períodos de prisão, julgamentos e agravamento de
sentenças sucedem-se num enumerado infindável, descrito no seu registo
prisional com o propósito de evidenciar uma suposta legalidade naquela actuação
da PIDE e dos Tribunais fascistas. Muito resumidamente:
Preso em 16 de Outubro de 1947, FDM
foi enviado para Caxias e, transitando para interrogatórios, veio dali para o
Aljube, e novamente para Caxias, onde ficou a aguardar julgamento, até Agosto
de 1948. Nessa data foi condenado e libertado mediante caução, mas em Julho de
1952 regressa a Caxias, depois de ver confirmada, pelo Supremo Tribunal de
Justiça, a pena de 18 meses (descontado o tempo da detenção preventiva,
cumprido). Esta pena era acrescida da famigerada «medida de segurança» de um
ano, a que se juntaram uma multa avultada e a perda de direitos políticos, por
3 anos. É então enviado para Peniche, para cumprir a pena e, a partir de
Fevereiro de 1953, iniciar a «medida de segurança». Até Novembro desse ano,
Duarte Mendes passa longos períodos de doença na enfermaria da Cadeia do Aljube,
aguardando um segundo julgamento em Tribunal Plenário, o que veio a ocorrer em
24 Novembro de 1953. Nessa ocasião, vê a pena inicial agravada de 4 meses de
prisão, e vai cumpri-los até Março de 1954, data em que termina a pena e inicia
o cumprimento da «medida de segurança». Em Junho de 1954, sai em “liberdade
condicional”, mas só em Maio de 1957 lhe é concedida a liberdade definitiva.
.
2. Após a saída da prisão, retoma a
actividade profissional, como operário de manutenção de equipamentos, na Fábrica
de Curtumes de Joaquim da Viúva, Vila Moreira (Alcanena). Reata ligações
políticas através de Manuel Coelho Dias*, um cidadão de Alcanena, sapateiro,
que também estivera preso (durante 6 meses, em 1953).
Em 21 de Setembro de 1961, escapa
àquela que podia ter sido a sua segunda prisão. A PIDE desencadeou uma leva de
prisões em Torres Novas, depois de dezenas já verificadas em 1953. Durante a
noite e todo o dia, sem mandatos de detenção, a polícia política procedeu a
detenções (em residências, locais de trabalho e na via pública) e levou para
Lisboa 20 trabalhadores, a maioria dos quais da Organização local do PCP. Entre
estes estaria Francisco Mendes, se ele se tivesse deixado apanhar. Passava da
meia noite daquele dia quando a PIDE entrou em casa dele, sendo recebida pela
sua companheira. Esta informa o marido e avisa os agentes da PIDE que ele já
estava deitado, mas ia vestir-se. Durante minutos, ouve-se ao longe a água do
lavatório a correr, até que os "pides", desconfiados com a demora, irromperam
pela casa dentro e confirmarem a fuga. Francisco Mendes tinha escapado por uma
pequena janela traseira, palmilhado alguns telhados, descido para um bairro e,
pegando na sua lambretta, arrancara para Alcanena. Dali, com o auxílio e a
cumplicidade de dois democratas, Esmeralda Flora Bento* e Carlos Pinhão*,
consegue chegar a Lisboa (1), onde fica na clandestinidade até emigrar para
Marrocos. Não tardou a dirigir-se para França (arredores de Paris), vindo a
integrar uma organização próxima do PCP, destinada a contactar e apoiar os
emigrantes portugueses, a «Association des Originaires du Portugal» (3).
Após o 25 de Abril de 1974,
Francisco Mendes regressa a Torres Novas. No final da manifestação do 1.º de
Maio foi orador, na condição de exilado político, da varanda do Cine-Teatro
Virgínia.
Segundo informação de companheiros,
terá vivido na margem Sul e, depois, regressado a França, onde faleceu a 12 de
Janeiro de 2017, no Hospital Militar de Vincennes.
Notas:
.
(1) Num documento da PIDE, datado de
1953, é indicado como “Elemento Disperso” do PCP com ligações ao MUDJ
(Movimento de Unidade Democrática Juvenil), na organização de Torres Novas.
[Jornal Torrejano]
(2) Foi abrigado pela democrata de
Alcanena Esmeralda Flora Bento e encaminhado para uma casa, onde se manteve
alguns dias. Levado para Alpiarça, esteve escondido num sótão, onde era apoiado
por Carlos Pinhão Correia, membro do PCP, também este já com várias passagens
pela cadeia.
.(3) A «Association des Originaires
du Portugal» (AOP), criada no início da década de 60 por iniciativa do PCP,
reunia trabalhadores portugueses, membros de organizações operárias, estava
implantada sobretudo na Île de France e agrupava comités locais de diferentes
cidades francesas.
(*) Ver biografias :
Fontes:
ANTT, Registo Geral de Presos 17908.
A Saga/Fuga de Francisco Duarte
Mendes, Crónica de José Alves Pereira, Jornal Torrejano.
Biografia da autoria de Helena Pato
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