100 anos de militância a caminho do futuro

1921-2021

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

MARIA ALDA NOGUEIRA (1923-1998)

MARIA ALDA NOGUEIRA (1923-1998)

Antifascista dotada de grande inteligência, cultura e sensibilidade, aliava a determinação nos combates à tolerância e à abertura para ouvir, para ler e reflectir o que quer que fosse diferente do que pensava.

Foi a primeira mulher condenada a 8 anos de prisão maior e medidas de segurança, a mulher com mais anos seguidos numa única prisão. Julgada em Tribunal Plenário em 1960, foi condenada a uma pena de 8 anos, seguida de “medida de segurança de internamento” de 6 meses a 3 anos, prorrogável por tempo indeterminado. Em 1967 iniciou o cumprimento da pena de “medidas de segurança”. E ficou em Caxias dez anos sofridos e intensos.

«Na prisão retiraram-me os melhores anos da minha vida. Entrei com 35 anos, saí com 45 anos.» - diz numa interessante entrevista a Helena Neves, de que deixamos aqui algumas passagens.

1. Maria Alda Barbosa Nogueira, filha de uma costureira de alfaiate e de um serralheiro mecânico, nasceu a 19 de Março de 1923 em Alcântara. Andou na Escola da Tapada (Alcântara) e frequentou o Liceu D. Filipa de Lencastre. Militou no Socorro Vermelho Internacional, recolhendo géneros e roupas para os espanhóis, e foi Presidente da Associação Escolar durante vários anos.


Aos 17 anos entrou na Faculdade de Ciências, onde veio a terminar a licenciatura em Físico-Químicas. Foi uma aluna brilhante e iria entusiasmar-se com a investigação. Ao mesmo tempo que participava nas lutas académicas, como aconteceu em 1942/43 contra o aumento das propinas, Maria Alda intensificou a intervenção social e política, nomeadamente na Associação Feminina Portuguesa para a Paz.
Depois, chegou a exercer a docência no Ensino Secundário, durante 3 anos.

Em 1945 conhece Maria Lamas e com ela o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas renasce para um período apaixonante de actividade, de desenvolvimento. Numa entrevista que dá a Helena Neves, fala de si, da sua vida, da luta nessa época, e do fascismo:

«O Conselho estava organizado só aqui em Lisboa e a Maria (Lamas), tal como muitas de nós, considerava que era necessário alargá-lo a todo o país. Como eu dava aulas mas tinha uma vida bastante disponível, fui destacada para ir ao Algarve e lá consegui organizar várias delegações do Conselho. Tínhamos várias actividades, entre elas, os cursos de alfabetização. Recordo-me que em Olhão foi distribuída uma tarjeta pelas fábricas informando que no Conselho se ensinava a ler e a escrever e o largo onde eu morava e funcionava o Conselho, ficou pejado de mulheres, umas 200 ou 300, querendo vir às aulas. Foi um trabalho esgotante este, mas maravilhoso. Aprendi muito com a Maria e também ela aprendeu connosco – foi belo!» Esta é a época do amadurecimento, em que Maria Alda se excede e se descobre nesse excesso, capaz de muito fazer e agir. Colabora nas "Mãos de Fada", na revista "Modas & Bordados", nas "Quatro Estações", faz conferências sobre a mulher e a ciência. Vive. Apaixonada. Intensamente. E tal será sempre o seu modo de estar.

É na Faculdade que entra para o Partido Comunista Português. A sua ânsia de transformação da vida não se esgota no estudo nem nas outras actividades de intervenção, Maria Alda sente necessidade de outros horizontes, outras formas de luta. Arrisca. Em 1949 entra na clandestinidade e vai trabalhar na redacção do «Avante!» Acredita, no entanto, que será por pouco tempo. O seu desejo mais profundo é dedicar-se à investigação, procurando conciliá-la com a participação política. Ausculta o passar do tempo e vai lendo obras científicas. Lê muito obras científicas para não se desactualizar.


«Pensei que era uma suspensão na minha carreira, apenas isso. E lia imensas obras da minha especialidade que pedia aos camaradas que me arranjassem. Entretanto, uni-me ao homem que amava, tive um filho. Mas sempre aguardando o momento em que eu retomaria a carreira. Senti sempre e sinto a nostalgia de não seguir a vida da investigação científica.»

Na entrevista que dá a Helena Neves, não se inibe de falar da família e da vida clandestina: «O meu primeiro amor foi uma coisa muito complicada e simultaneamente uma coisa inesquecível. O primeiro amor... (...) A paixão viria mais tarde «e foi uma paixão à primeira vista. Olhei-o e pensei "Se não tiver mais ninguém, este há-de ser o meu companheiro"…» Sê-lo-ia. Durante anos. (...) «Queríamos ter um filho. Era um desejo partilhado. Era difícil economicamente, mas ousámos. Vivíamos privados de muita coisa mas porque, muitas vezes, estabelecíamos residência em zonas piscatórias ou agrícolas, sempre conseguíamos viver menos-mal. Recordo-me que numa das casas que tivemos, todos os dias passava um pescador a dar-nos peixe fresco só porque eu lhe dera umas calças velhas e uma camisola.»

2. Em 1957 no V Congresso do PCP é eleita membro suplente do Comité Central. Em 1959 é presa, abruptamente, e ficará presa desde Outubro de 1959 até Dezembro de 1969.


É logo nos primeiros dias de prisão, quando incomunicável, que Alda imagina a primeira história infantil, que termina já em liberdade e publicará em 1977: «A viagem numa Gota de Água.» - Uma escrita que corresponde à recordação do filho e de outras crianças atravessando a sua memória. E que corresponde também à necessidade de sobreviver, sem desespero, à incomunicabilidade.


«Quando estávamos completamente isoladas, só tínhamos o pente, o prato, o púcaro e pão. Nem lápis, nem papel, nem caneta. Deixaram-me ficar o bâton, que me serviu para fazer na mesa um jogo de xadrez com bolinhas de pão. Cada pessoa tentava enfrentar esta situação de isolamento. Eu entrei no caminho da recriação. Trazia para a minha mente coisas que me afastassem da realidade». E vai exercitar essa fuga indefinidamente. Nos interrogatórios. Nas horas pesadas de solidão da cela.


«As primeiras 24 horas são as mais difíceis, depois espera-se tudo. Também nos interrogatórios, eu imaginava como seria o Minho socialista ou esta ou outra terra, e desligava do que eles estavam para lá a dizer. Eles apercebiam-se e batiam com a gaveta. Isto foi uma espécie de defesa. Eu ia para outro mundo e imaginava una história para crianças.


Quando saí da incomunicabilidade tinha a história toda escrita na minha cabeça e uma das primeiras coisas que fiz foi passar a papel aquelas ideias, imaginei o desenho. Isto foi o alimento intelectual para este período. Pois foi assim que comecei a imaginar histórias… Escrevi, então, "A viagem numa Gota de Água". Quanto à outra, "A Viagem numa Flor", quando saí da cadeia já a tinha mais ou menos escrita, mas só depois é que a concluí.»


E na prisão, ao longo desses longos dez anos, Alda faz muitas amizades nas companheiras.

«Estive com várias amigas durante muitos anos – a Sofia Ferreira, Ivone Dias Lourenço, Maria da Piedade, Aida Paula, Matilde Bento, Maria Luísa Costa Dias e tantas outras. Passámos por várias situações. Houve salas com beliches (10 ou 12 pessoas) e outras menores. Dividíamos o dia em duas partes. De manhã levantávamo-nos e tínhamos de correr para tomar o banho quente (com o tempo contado e só uma por casa de banho). A inspecção e a contagem eram às 8H. Recebíamos um jornal diário – o Século – e líamos em colectivo. À volta da mesa fazíamos os nossos trabalhos. Fiz então as camisolas todas do meu filho, saias para a minha mãe, pegas para a cozinha, essas coisas… A Ivone fazia bonecas, caixas e outras coisas interessantes. Elas foram-me ensinando. A visita era às 10H, em geral de meia hora. Depois trocávamos as notícias… que não eram muitas pois a vigilância era muito grande. Almoçávamos. Repousávamos. E retomávamos o trabalho»


«Na prisão retiraram-me os melhores anos da minha vida. Irreversivelmente. As pessoas mudavam o carácter. Aquilo tinha tudo um efeito destruidor. As celas mediam 4m por 4m, contando com a casa de banho. Nas salas grandes fazíamos teatro, caricaturávamo-nos umas às outras, na brincadeira. Tínhamos direito a meia hora de gira-discos. A mim proibiram-me de ouvir uma sinfonia porque era tocada pela orquestra de Leninegrado. Os nossos tempos livres tinham grandes animadoras, cantava-se o fado. E cantigas de infância até!


O tempo tem uma contagem conforme se vive mais ou menos os acontecimentos. Ao fim de cinco anos de cadeia deixamos de ter a noção dos dias. O tempo deixa de contar. A sensação de sair em liberdade sozinha foi horrível. Eles tinham dito que eu saía e eu disse ao meu irmão para estar lá à minha espera. Anteciparam 24 horas e sai só, com duas malas grandes, num mundo que tinha mudado tanto. À porta da António Maria Cardoso foi horrível, não podia com as malas. Meti-me no eléctrico até à Rua do Ouro. Aí, meti-me num táxi e disse ao homem para me levar a Alcântara, ao Largo do Calvário. Quando saí tinha dificuldade em andar. Lembro-me de ir na rua com o meu filho e parecia-me ter um tapete rolante que me levava a cair. Fez-me muita impressão ver as pessoas juntas num eléctrico, num autocarro. Sentia as pessoas com um ar muito triste. O primeiro filme que fui ver o "Romeu e Julieta". Quando veio o intervalo e vi todas as pessoas juntas, fiquei agoniada e vomitei o jantar todo e tive de me vir embora.


A vertigem dos espaços abertos. Sem grades. E o roçar da gente que vai ao nosso lado ou atrás de nós e passa à frente, e não é, afinal, um inimigo, como temíamos no coração feito pássaro de susto. Mas pode ser também a inocência no rosto apenas máscara, disfarce, armadilha. A maior partida não foi o amor que ma pregou, mas sim o fascismo. Se um homem andava atrás de mim, pensava logo que era PIDE.»
Em liberdade condicional, mas constantemente vigiada e perseguida, Alda Nogueira voltou à militância, e encontrava-se na Bélgica com o estatuto de refugiada política aquando do 25 de Abril de 1974.


3. Depois do 25 de Abril foi também no combate pela libertação da mulher que se moveu – e fez mover outras mulheres – com paixão e empenhamento constantes. Colaborou no Suplemento "A Mulher" do Diário.

Publicou os livros infantis escritos ou imaginados na prisão: "Viagem numa Gota de Água" e "Viagem numa Flor" e "As coisas também se zangam".

«Considero-me feliz e realizada, embora haja lacunas. Há aspectos em que fui defraudada, mas quem não foi, quem de nós que vivemos a maior parte da nossa vida sob o fascismo? Como mãe, o meu filho compensa-me do que eu sonharia. Como mulher, guarda recordações inesquecíveis. Descobri coisas que nem sequer pensava ser possível descobrir. Trabalhei e conheci pessoas extraordinárias.
Penso que só numa sociedade em que todos tenham acesso a tudo, a mulher poderá acabar com as discriminações. É um processo lento e não compensatório. Há problemas que não vão estar resolvidos tão cedo. Estou metida neste processo, não verei o seu fim, mas a minha preocupação é dar a conhecer às jovens de hoje, o que as mulheres fizeram. E tanto que foi!»

4. Foi deputada à Assembleia Constituinte de 1975 e eleita para a Assembleia da República em 1976, onde permaneceu até 1986.
Membro do C.C. do PCP e deputada de 1975 a 1985. Presidente da Comissão Parlamentar da Condição Feminina de 1983 a 1985, Maria Alda Nogueira permaneceu activa, interveniente, inquieta.


Para além de ter exercido o cargo de Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PCP durante 12 anos, integrou também várias comissões parlamentares.


Em 1988 foi condecorada com a Ordem da Liberdade pelo Presidente da República. Em 1987 recebeu a Distinção de Honra do Movimento Democrático de Mulheres.
Faleceu em 5 de Março de 1998. Entre as numerosas personalidades que estiveram presentes nas cerimónias fúnebres, no cemitério do Alto de S. João, encontrava-se o Presidente da República, Jorge Sampaio.

Helena Pato

Biografia escrita a partir de uma entrevista dada a Helena Neves
- http://ocastendo.blogs.sapo.pt/2008/03/
- http://www.parlamento.pt/VisitaParlamento/Paginas/BiogAldaNogueira.aspx
- http://silenciosememorias.blogspot.pt/2015/03/0946-alda-nogueira-i.html

terça-feira, 8 de setembro de 2020

HUMBERTO LOPES (1918 – 1984)

HUMBERTO LOPES (1918 – 1984)

Uma personalidade invulgar com uma vida inteiramente dedicada à luta pela Liberdade e pela Democracia. Um antifascista que se destacou nos combates contra a Ditadura, pelo seu carácter, dinamismo, cultura e determinação. Preso e julgado em Tribunal Plenário inúmeras vezes, esteve no Forte de Peniche durante anos. Exerceu a advocacia em Santarém e defendeu presos políticos nos Tribunais Plenários.

1. Humberto Pereira Dinis Lopes nasceu em Santarém, a 17 de Outubro de 1919 e faleceu a 23 de Novembro de 1984. Era filho de Humberto d’Amorim Diniz Lopes e de Maria Judith Martins Pereira Diniz Lopes. [Com 21 anos, o seu pai morreu e a mãe teve de educar sozinha os três filhos, Joaquim, António e Humberto, no difícil período do pós-Guerra Civil de Espanha e início da II Guerra Mundial]. Humberto Lopes fez o ensino secundário em Santarém e aos 14 anos já se manifestava contra a Ditadura do Estado Novo. Adere ao Partido Comunista em 1942 e, a partir daí, vai ter intensa actividade clandestina, embora vivesse na legalidade. Em 1943 concluiu o curso de direito na Universidade de Lisboa e, ainda no princípio da década, casou-se com Arminda Santos Soares, irmã de Pedro Soares (1). Fez estágio no escritório do advogado Manuel Ginestal Machado e, em Novembro de 1943, era já o delegado interino do Procurador da República, em Santarém. No início da década de 40 tinha contactos com Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol e Pedro Soares. Pouco antes de terminar a licenciatura, em 1942, começou a militar no Partido Comunista e foi destacado para criar o comité local do partido, em Santarém (2). A fim de executar essa tarefa organizativa, Humberto Lopes passou a integrar diversas colectividades escalabitanas tornando-se sócio de agremiações desportivas e recreativas em meios operários, na perspectiva do aliciamento e recrutamento para o PCP. Chegou a ser dirigente de algumas delas e a presidir a júris de concursos. Foi dirigente do Club Literário, do Orfeão e do Grupo de Coordenação que ajudou a fundar em 1944. Entre 1943 e 1946, presidiu à Comissão Executiva do Concurso Literário Ribatejano em que participaram colectividades de Santarém. Em 1944, empenhou-se, com Arminda Soares, na criação do Club Literário Guilherme de Azevedo e do Grupo Pró-Cultura dos Empregados no Comércio para fundar o primeiro jardim-de-infância em Santarém (um projecto pioneiro que durou apenas três meses).

Em Maio de 1945, começou a advogar em Santarém. Era então membro do MUD e foi encarregado de estabelecer os contactos com a comissão concelhia de Rio Maior. Todavia, em 1 de Junho de 1946 foi preso, acusado de distribuir propaganda subversiva e de pertencer ao comité regional do “Médio Ribatejo” do Partido Comunista Português, usando o pseudónimo “Júlio”. Foi libertado do Aljube a 14 de Outubro de 1946 mediante o pagamento de avultada fiança de 30 mil escudos. Ainda participou em diversas iniciativas, nas quais exprimiu as suas preocupações com os problemas do Ribatejo (3), mas a 13 de Janeiro de 1948 foi julgado em Tribunal Plenário e condenado a 10 meses de prisão correccional, que cumpriu no Forte de Peniche, de onde foi libertado a 13 de Julho de 1949.

Em 1950, Humberto Lopes participou como testemunha no julgamento de Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura e José Morgado, membros do Movimento Nacional Democrático. Em 1952, foi preso juntamente com os advogados Lino Lima e Carlos Cal Brandão “por ter requerido, num abaixo-assinado dirigido ao Director dos Serviços Prisionais, a tomada de “medidas adequadas para normalizar a situação existente, procedendo-se a um amplo e rigoroso inquérito”, sobre a greve dos presos na Cadeia de Peniche em Dezembro desse ano (4). [O ministro da Justiça, Cavaleiro Ferreira, acusou os advogados de abusarem da sua profissão para «fins inconfessáveis» e por tentarem injuriar as autoridades]. Libertado de Caxias um mês depois, volta a ser preso em Fevereiro de 1953 e, após um período passado nos cárceres do Aljube e Caxias (chegando a dar entrada no Hospital de S. José), é levado, uma vez mais, a julgamento no Tribunal Plenário, e libertado mediante caução, em 25 de Abril desse ano.

.2. Novamente preso em 13 de Novembro de 1953, passa então temporadas nas cadeias do Aljube, Caxias e Porto, até ser novamente julgado em Tribunal Plenário. Nesse julgamento, com início a 24 de Dezembro de 1953, Arminda Soares é presa «por desobediência» quando estava a assistir, é levada para os calabouços da PSP e julgada no Tribunal da Polícia; e o advogado de HL, Manuel João da Palma Carlos, acaba sendo transferido do banco da defesa para o banco dos réus. [O Tribunal Plenário moveu-lhe um processo e condenou-o sumariamente pela sua actuação no julgamento, considerando injuriosa a afirmação de que os juízes podiam julgar como lhes apetecesse com prova ou sem prova, mas tinham que registar em acta tudo quanto se passava na audiência]. O incidente teve dimensão internacional e recebeu manifestações de solidariedade na oposição democrática. O julgamento deste processo estende-se até 1955 e HL é absolvido e libertado no dia 25 de Março de 1955. Humberto Lopes havia sido sistematicamente castigado pela direcção da cadeia/PIDE, em 1953 e 1954, com punição de vários períodos de isolamento em “celas disciplinares”, por se recusar a prestar declarações sobre “factos ocorridos na sala onde se encontrava detido”, por escrever frases “desprimorosas” em cartas dirigidas ao director da cadeia, ou por revelar “espírito de rebeldia” e “desobediência”. [Em1954, na prisão de Caxias, HL havia sido alvo de um processo-crime, acusado de fazer parte da “organização prisional” do PCP, juntamente com outros militantes do partido como o cunhado Pedro Soares].

Em Março de 1957, HL foi um dos 72 advogados de Lisboa e do Porto que assinaram uma representação ao ministro da Presidência pedindo um «inquérito à PIDE».

De 1957 a 1960, vai passar sucessivamente pelos tribunais, em diversos processos, nomeadamente acusado de “actividades subversivas” praticadas dentro da própria prisão (5).

Volta a ser preso em Novembro de 1957 e é condenado no Tribunal Plenário de Lisboa a 2 anos e meio de prisão, seguidos de «medidas de segurança» períodos de 6 meses a 3 anos, prorrogáveis. Só foi libertado quase 6 anos depois, em Julho de 1963, mas com residência fixa em Santarém (única comarca em que podia advogar) e a obrigatoriedade de abstenção de qualquer actividade política. Durante o tempo em que esteve preso [acompanhou a fuga de Peniche de Álvaro Cunhal e Pedro Soares, com outros], escreveu vários trabalhos de carácter jurídico, alguns dos quais foram distinguidos com o Prémio Alves de Sá, da Ordem dos Advogados (em 1959, 1960 e 1961).

3. Em 1969, fez uma comunicação ao II Congresso Republicano de Aveiro, intitulada «Amnistia», na qual pretendia chamar a atenção para a necessidade de pôr termo à existência de presos políticos em Portugal; e apresentou uma tese intitulada «Justiça Republicana».

Em Maio de 1972, foi um dos subscritores de um manifesto intitulado «A Situação Política Portuguesa e o Fracasso do Reformismo», apreendido pela DGS e por isso interrogado.

Em 1973, Humberto Lopes pertenceu à Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática (pelo distrito de Santarém) e integrou a Comissão de Desenvolvimento Regional e Administração Local. Nesse ano foi candidato nas eleições para a Assembleia Nacional na lista da CDE, pelo círculo de Santarém.

Defendeu presos políticos no Tribunal Plenário de Lisboa.

Após o 25 de Abril de 1974, para além da sua actividade de advogado, Humberto Lopes foi dirigente do MDP e desempenhou cargos autárquicos e associativos. Integrou uma comissão da Feira do Ribatejo, a Mesa da Misericórdia e da Assembleia Distrital da Misericórdia de Santarém. Foi membro da delegação de Santarém da Ordem dos Advogados entre 1972 e 1974 e deixou vasta colaboração na revista da Ordem dos Advogados e no Jornal do Foro.

Recebeu o “prémio Alves de Sá” por livros jurídicos escritos enquanto se encontrava preso. Foi um colaborador regular do jornal Correio do Ribatejo, desde a década de 40 até ao seu falecimento.

O seu nome faz parte da Toponímia de Santarém (Avenida Dr. Humberto Lopes e Rua Dr. Humberto Lopes).

.Na década de 70, casou em segundas núpcias com Isabel Maria Beja Calado Diniz Lopes. Dessa união nasceram cinco filhos: Judite Isabel, Humberto Joaquim, António José, Rui Guilherme e Pedro Manuel.

Notas:

(1) A partir de 1946, a militância política de Humberto Lopes e do cunhado, Pedro Soares, levou-os várias vezes à prisão e Arminda Soares chegou a visitá-los ao mesmo tempo.

(2) Segundo o historiador João Madeira, no estudo “Os Engenheiros de Almas. O Partido Comunista e os Intelectuais (1996)”.

(3) Em Junho de 1947, no II Congresso do Ribatejo (Santarém) apresentou a tese “As Colectividades Desportivas de um Novo Tipo. Em Outubro desse ano, deslocou-se a Tomar para, no âmbito do mesmo Congresso, apresentar as teses: “O Problema do Analfabetismo”, “O Ensino Agrícola no Ribatejo” e “O Conhecimento da Terra Portuguesa, e em Especial do Ribatejo, através dos Livros Adoptados e dos Programas de Instrução Primário e do Liceu”.

(4) Levados ao Tribunal Plenário de Lisboa em Abril de 1950, foi o julgamento interrompido em consequência da promulgação de uma lei de amnistia.

(5) O que levou o seu advogado, Salgado Zenha, a afirmar que se era tão perigoso na cadeia o melhor seria soltá-lo.

Fontes:

- ANTT, Registo Geral de Presos nº 17 006

- Jornal Correio do Ribatejo, Teresa Lopes Moreira.

- Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973). Um Dicionário, Mário Matos e Lemos, Luís Reis Torgal, Coordenador, Colecção Parlamento, Edição da Assembleia da República.

- .https://ruascomhistoria.wordpress.com/2019/10/17/humberto-lopes-advogado-e-politico-se-fosse-vivo-faria-hoje-100-anos/

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Biografia da autoria de Helena Pato

Antifascistas da Resistência

Fotografia do espólio pessoal de Judite Lopes, filha de Humberto Lopes. Tirada em 1973, por ocasião do III Congresso da oposição democrática, contém uma relevante dedicatória a Isabel e aos filhos de ambos.

sábado, 5 de setembro de 2020

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA (1942-1982)


ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA (1942-1982)

1. Nascido no Porto, a 9 de Abril de 1942, o Adriano morreu cedo de mais: apenas com 40 anos, em Avintes, na mesma localidade que o viu crescer. Mas, se foi breve demais a sua vida, ela foi vivida com grande intensidade, e inesgotável entrega, com grande devoção, aos seus ideais antifascistas.

Em Coimbra, para onde foi estudar Direito, em 1959, deparou imediatamente com uma intensa actividade estudantil e cultural. Ainda «caloiro», iniciou-se no teatro e na música. Com grande sensibilidade para a poesia e para a música popular, dotado de um timbre de voz único e com uma emoção intensa, que colocava em todos os temas que interpretava, iniciou uma carreira musical própria, juntamente com alguns dos compositores e músicos que o acompanharam durante toda a sua vida. Em 1960, grava o seu primeiro disco, com o título "Noite de Coimbra".

É também em Coimbra que toma contacto com o forte movimento antifascista estudantil, ao qual adere desde a primeira hora. Junta-se ao PCP, o seu partido de sempre e para sempre. Na sua música, a sua extrema emotividade está sempre presente, bem como a sua dedicação aos trabalhadores, ao povo, aos ideais da liberdade, da democracia, do socialismo.

Entre 1960 e 1980, grava mais de noventa temas, que constituíram aquela que é uma das mais ricas obras musicais do século XX português. Antes e depois do 25 de Abril percorre o País e o mundo com uma voz carregada de esperança. Entrega-se por inteiro a espectáculos musicais, a sessões e a comícios do seu Partido. Morreu em Avintes, em Outubro de 1982.

[Dados biográficos in http://delta3.no.sapo.pt/biografiaAdriano.html]

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2. (*) «Durante a Resistência, Adriano deu voz ao povo e, acima de tudo, entregou ao povo o seu destino. Cantava em convívios de antifascistas, sempre com um sorriso doce e a generosidade das boas almas. «Venho dizer-vos que não tenho medo». Se calhar tinha. Tínhamos todos.
Conheci o Adriano em Coimbra, por 1963.

 
A ida do CITAC (Grupo de Teatro de Coimbra) a Paris, em 1964, quando me encontrava no exílio, é um marco pessoal inesquecível da minha ligação com Resistência ao fascismo, no interior do País. Em Paris, numa noite fresca – apesar de Agosto – depois do espectáculo, fomos em grupo para junto do Sena, num clima de emoções e solidariedades. Foi aí que ficou inscrita, nas pedras do cais – tenho a certeza – a voz já inconfundível (mas ainda pouco conhecida) do Adriano Correia de Oliveira.

 
Ao alvorecer, ele, com a guitarra colada ao peito e a cabeça inclinada para os céus, tão ao seu jeito, ergueu a sua portentosa voz, projectando-a por cima de um coro de dezenas de exilados e de jovens actores, que cantavam em uníssono a canção de José Afonso:

Ergue-te ó sol de verão! / Somos nós os teus cantores/ Da matinal canção/ouvem-se já os rumores/ ouvem-se já os clamores/ouvem-se já os tambores…

Para mim, era o Adriano, levando-nos a sua esperança e a confiança do Zeca num qualquer Abril.

 
Essa noite, toda a noite, foi feita de ternura, de companheirismo e de cumplicidade. E, como se isso não tivesse bastado para reacender o ânimo dos exilados e nos deixar com um peculiar sabor a pátria, ainda os acompanhámos, já era manhã, à gare de Orléans-Austerlitz. Sem nos lembrarmos das horas dos nossos empregos, sem fome, sem sono, mas com os olhos quase fechados, o corpo pesado e uma dor aguda no peito.
Sucediam-se os abraços e os beijos. Não nos largávamos, e era tão forte a corrente de solidariedade, que, nas janelas entreabertas do Sud Express, as mãos de quem partia e as de quem ficava pareciam coladas. Foi então que um dos elementos do CITAC (vestia capa e batina e misturava restos de bebedeira com muitas lágrimas), perante a preocupação geral com a ausência de um dos rapazes do grupo, gritou sem parar e a plenos pulmões: «Eu já sabia que ele ia ficar, ele fica, ele fica, não o procurem, ele não regressa, ele não quer ir à guerra! Fica por Paris! Tomem conta dele, por cá, amigos!» Ficou: Victor Carvalho. 

 
Noite memorável: não encontro melhor retrato dos amargos tempos do exílio. O Adriano e o CITAC foram a nossa Pátria por umas horas.
Algum tempo depois da gravação, em 1963, do álbum «Trova do Vento que Passa», Adriano Correia de Oliveira comentou: «Foi a partir do acolhimento dessa canção que comecei a sentir que estava do lado justo, do lado antifascista». De facto, durante a Resistência, Adriano deu voz ao povo, aonde estava o povo. Cantava em convívios de anti-fascistas, sempre com um sorriso doce e a generosidade das boas almas.
Depois da Revolução, ouvimos-lhe o canto durante alguns anos, até ao seu fim. Cantou para além da dor. Até ao limite da sua força física. Para além da vida. Fomos cúmplices nos copos, na festa e nas alegrias. Sofremos, com ele, amarguras, desilusões e afectos. No seu último Agosto, por uns dias, partilhou com o meu filho o quarto e o sol da nossa casa na Praia da Rocha.

Há pouco, comovi-me com um poema do Manuel Alegre e veio-me à memória esse Verão com o Adriano:

«Nos seus olhos havia desamparo
e mais que desamparo havia perda
e mais que perda havia um espaço em branco
ou talvez a cor do nada, a cor de quem
está para além da própria dor. Levava
uma menina pela mão
e nos seus olhos então sobre a amargura
de repente havia também ternura».

Pouco depois, em Outubro, a esperada notícia.
«O Adriano morreu, mãe! Porquê?» – Vi os olhos rasos de lágrimas numa criança com 12 anos, que não percebia porquê. Quem lhe tirava para sempre um amigo? A morte saltava-lhe, pela primeira vez, dos textos abstractos dos livros da escola.

«Vim para longe, mas estarei sempre convosco» – sussurra-me agora, nas horas de trevas, calando-me saudades de velha chorincas. E daí, de um lugar de memória a que só raros estão destinados, chega-nos, uma brisa que nos perpassa, neste Abril:

«Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não».

(*) Parte de uma intervenção de Helena Pato, em 2012, na evocação de Adriano Correia de Oliveira, em Mira, que teve lugar por ocasião da inauguração de um memorial a Adriano Correia de Oliveira e a Zeca Afonso.

Pode ler uma biografia do Adriano, muito completa, em: http://nossaradio.blogspot.pt/2007/04/galeria-da-msica-portuguesa-adriano.html

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

ALBERTO VILLAVERDE CABRAL (1942 – 1996)


 ALBERTO VILLAVERDE CABRAL (1942 – 1996)

Jornalista antifascista, dedicado militante da luta contra a ditadura, bateu-se desde muito jovem pela instauração da democracia em Portugal. Destacou-se como analista de política internacional, em quem se reconhecia uma incisiva e lúcida perspicácia política.
Contribuiu para a dignificação da profissão de jornalista, evidenciando-se pela qualidade dos seus artigos, sobretudo das suas crónicas sobre questões internacionais, e por uma escrita clara e rigorosa. Morreu muito novo, mas teve grande influência na formação de muitos jovens jornalistas, que então iniciavam a sua vida profissional. Era um homem afável, de extrema simplicidade e uma atraente bonomia.

1. Nasceu no dia 21 de Junho de 1942, em Ponta Delgada (Açores), onde, por razões profissionais do pai (um engenheiro agrónomo casado com uma senhora espanhola), a família viveu entre 1940 e 1942. Cresceu em Santo Amaro de Oeiras, na Avenida Carlos Silva, nº 2, e aí fez os estudos primários e secundários [1].

Aos dezasseis anos, quando ainda era estudante do liceu de Oeiras, iniciou a sua actividade política na luta contra o fascismo, participando, com o seu irmão Manuel Villaverde Cabral (mais velho dois anos), na campanha para as eleições presidenciais de 1958, primeiro a favor de Arlindo Vicente e, após a desistência deste, a favor de Humberto Delgado. Datam dessa época os seus primeiros contactos com o Partido Comunista Português. Na crise académica de 1962, participou no movimento estudantil dos liceus. Casou-se com Marília Pereira Morais, em 5 de Outubro de 1963, e durante algum tempo viveu de traduções.

Em 1967, após completar o serviço militar, já casado e com dois filhos, foi preso pela PIDE, ficando cerca de dois meses em Caxias, depois de ter sido submetido a tortura do sono.

Entre 1969 e 1974 participou activamente no Movimento CDE, tendo sido membro da sua Comissão Executiva. Antes do 25 de Abril, dinamizou o movimento sindical dos jornalistas e fez parte de comissões que pugnavam pela liberdade de expressão.

2. Vida profissional

A vida profissional de Alberto Villaverde tem início em 1967, na agência noticiosa americana Associated Press, onde ocupou o cargo de responsável pela secção internacional. Logo de seguida, em 1968, entra no Diário de Lisboa, jornal em que se manteve até 1974, com grande actividade de artigos e crónicas, na quase totalidade truncadas pela implacável censura fascista.

Em Dezembro de 1971 publicou “Chile a Etapa Necessária”, escrito juntamente com José Garibaldi Barros Queirós, publicado na editora Estampa e que iria ser imediatamente apreendido pela PIDE [Um livro sobre a situação no Chile e o programa de governo de Allende.

Em Março de 1973, publicou “Comentários ao Dia-a-Dia Internacional”, na Prelo Editora [conjunto de textos sobre a actualidade política em vários países, com destaque para a denúncia dos bombardeamentos americanos ]a alvos civis na guerra do Vietname, e referindo as vitórias do povo vietnamita].

Em 1973 é um dos participantes (com José Tengarrinha, Francisco Pereira de Moura, Helena Neves, Sérgio Ribeiro, entre outros) em “Mesa Redonda” [Gravação em disco sobre a “Conferência da Paz, Segurança e Cooperação na Europa”, com a defesa do desanuviamento militar e a denúncia do regime de Marcelo Caetano, do isolamento internacional de Portugal e do atraso económico e social do país].

Em 1973 integrou a Comissão Nacional do 3.º Congresso da Oposição Democrática e participou no Congresso com a tese “Portugal e a NATO”, uma intervenção escrita em que abordava a posição do regime no plano internacional, criticava a presença de Portugal na NATO e denunciava o apoio desta aliança à guerra colonial, mediante fornecimento de armas e aviões.

3. Após o 25 de Abril

Logo após o 25 de Abril, durante o período revolucionário, foi director de Informação na RTP. Foi um dos fundadores e o primeiro director da Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP), chegando a ser presidente do seu conselho de administração.

Após o 25 de Novembro, faz parte do núcleo fundador de “O Diário”, jornal em que iria trabalhar como editor da secção internacional.

Ao longo da sua vida, foi colaborador de muitos jornais e revistas, com destaque para a Seara Nova e escreveu, entre outros, em O Tempo e o Modo, Notícias da Amadora, A Bola, Avante e Militante – sempre sobre questões de política internacional. Foi comentador em diversos debates televisivos sobre temas internacionais. Foi colaborador na TSF. Viajou em trabalho pelo mundo inteiro.
Foi um dos membros fundadores da Organização dos Jornalistas Comunistas.

Teve três filhos: Teresa Villaverde, Manuel Villaverde e Joana Villaverde [2].

Morreu em Lisboa, no dia 19 de Agosto de 1996, aos 54 anos, vítima de doença.

Em Lisboa, foi atribuído o seu nome a uma rua da freguesia de São Francisco Xavier, no Restelo.

.Notas

[1] Alberto Villaverde Cabral era bilingue: o castelhano era uma língua tão naturalmente falada em sua casa, como o português. O pai era um homem especialmente culto, inteligente, persuasivo, um técnico muito competente. No entanto, era a mãe, uma senhora espanhola com grande abertura de espírito, muito mais nova do que o pai (tinha 19 anos quando se casou), quem tinha a influência predominante sobre os dois filhos.

[2] Alberto Villaverde Cabral é uma referência de grande importância para os três filhos.

Biografia da autoria de Helena Pato

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