100 anos de militância a caminho do futuro

1921-2021

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

ALEXANDRE BABO (1916-2007)


 ALEXANDRE BABO (1916-2007)

Advogado que se destacou como antifascista, sempre na primeira linha dos combates contra a ditadura, e foi um invulgar dinamizador cultural, escritor e um dramaturgo de assinalável mérito.

1. Alexandre Babo ingressou em 1933 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, licenciando-se em 1939. Foi desde muito novo militante antifascista e democrata. Em 1936, na clandestinidade, foi iniciado na Maçonaria, fazendo parte da Acção Anticlerical e Antifascista e do Bloco Académico Antifascista, onde lutou contra o salazarismo. Em 1941 fundou com Amaral Guimarães e Abílio Mendes as Edições Sirius que tiveram uma importante contribuição cultural. Após a Segunda Guerra Mundial, vai para Paris como delegado da revista Mundo Literário (1946-1948). 

 
Em 1943 ingressou no Partido Comunista Português. Como advogado interveio nos julgamentos do Tribunal Plenário do Porto e no Supremo Tribunal de Justiça em defesa de acusados políticos. Fez parte do Conselho do Porto do Movimento de Unidade Democrática (MUD) e da Comissão Distrital da Campanha do General Norton de Matos.

2. Enquanto exercia advocacia no Porto, ligou-se ao TEP (Teatro experimental do Porto), tendo sido o primeiro Presidente da Direcção eleito, dias depois de aderir, em 1952. (*). Em Londres foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e, posteriormente, em 1960, foi correspondente do Jornal de Notícias e cronista da BBC. Também em 1960, contribuiu para a fundação do Teatro Moderno do Clube Fenianos Portuenses junto com Luís de Lima e Fernando Gaspar. Foi director do Círculo de Cultura Teatral e em 1964, de volta a Lisboa, fundou O Palco, Clube de Teatro. Fez crítica de teatro durante dez anos.

Entre 1961 e 1965 foi colaborador permanente do Jornal de Notícias, com uma crónica às segundas-feiras. Desde 1965 exerceu advocacia em Lisboa. No campo das letras dedicou-se ao teatro, à ficção, à crítica, ao jornalismo e à tradução.
Foi um dos fundadores da Associação Portuguesa de Escritores, em 1973, tendo sido sócio honorário daquela associação e cooperante da Sociedade Portuguesa de Autores desde 1977. Foi co-fundador da Liga Para o Intercâmbio Cultural Social Científico com os Povos Socialistas, da Associação Portugal-URSS. Com outros, ajudou a fundar a Associação Portugal-RDA, sendo seu secretário-geral até à unificação das duas alemanhas.

Várias das suas obras foram proibidas pela censura da PIDE. Recebeu a medalha de mérito cultural da Câmara Municipal de Cascais, Concelho onde vivia. Faleceu aos 91 anos, deixando vários textos inéditos.
Foi homenageado, juntamente com todos os advogados de presos políticos do regime fascista, pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória (NAM), em sessão realizada na Assembleia da República, em 2014.

Helena Pato

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

MARIA ALDA NOGUEIRA (1923-1998)

MARIA ALDA NOGUEIRA (1923-1998)

Antifascista dotada de grande inteligência, cultura e sensibilidade, aliava a determinação nos combates à tolerância e à abertura para ouvir, para ler e reflectir o que quer que fosse diferente do que pensava.

Foi a primeira mulher condenada a 8 anos de prisão maior e medidas de segurança, a mulher com mais anos seguidos numa única prisão. Julgada em Tribunal Plenário em 1960, foi condenada a uma pena de 8 anos, seguida de “medida de segurança de internamento” de 6 meses a 3 anos, prorrogável por tempo indeterminado. Em 1967 iniciou o cumprimento da pena de “medidas de segurança”. E ficou em Caxias dez anos sofridos e intensos.

«Na prisão retiraram-me os melhores anos da minha vida. Entrei com 35 anos, saí com 45 anos.» - diz numa interessante entrevista a Helena Neves, de que deixamos aqui algumas passagens.

1. Maria Alda Barbosa Nogueira, filha de uma costureira de alfaiate e de um serralheiro mecânico, nasceu a 19 de Março de 1923 em Alcântara. Andou na Escola da Tapada (Alcântara) e frequentou o Liceu D. Filipa de Lencastre. Militou no Socorro Vermelho Internacional, recolhendo géneros e roupas para os espanhóis, e foi Presidente da Associação Escolar durante vários anos.


Aos 17 anos entrou na Faculdade de Ciências, onde veio a terminar a licenciatura em Físico-Químicas. Foi uma aluna brilhante e iria entusiasmar-se com a investigação. Ao mesmo tempo que participava nas lutas académicas, como aconteceu em 1942/43 contra o aumento das propinas, Maria Alda intensificou a intervenção social e política, nomeadamente na Associação Feminina Portuguesa para a Paz.
Depois, chegou a exercer a docência no Ensino Secundário, durante 3 anos.

Em 1945 conhece Maria Lamas e com ela o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas renasce para um período apaixonante de actividade, de desenvolvimento. Numa entrevista que dá a Helena Neves, fala de si, da sua vida, da luta nessa época, e do fascismo:

«O Conselho estava organizado só aqui em Lisboa e a Maria (Lamas), tal como muitas de nós, considerava que era necessário alargá-lo a todo o país. Como eu dava aulas mas tinha uma vida bastante disponível, fui destacada para ir ao Algarve e lá consegui organizar várias delegações do Conselho. Tínhamos várias actividades, entre elas, os cursos de alfabetização. Recordo-me que em Olhão foi distribuída uma tarjeta pelas fábricas informando que no Conselho se ensinava a ler e a escrever e o largo onde eu morava e funcionava o Conselho, ficou pejado de mulheres, umas 200 ou 300, querendo vir às aulas. Foi um trabalho esgotante este, mas maravilhoso. Aprendi muito com a Maria e também ela aprendeu connosco – foi belo!» Esta é a época do amadurecimento, em que Maria Alda se excede e se descobre nesse excesso, capaz de muito fazer e agir. Colabora nas "Mãos de Fada", na revista "Modas & Bordados", nas "Quatro Estações", faz conferências sobre a mulher e a ciência. Vive. Apaixonada. Intensamente. E tal será sempre o seu modo de estar.

É na Faculdade que entra para o Partido Comunista Português. A sua ânsia de transformação da vida não se esgota no estudo nem nas outras actividades de intervenção, Maria Alda sente necessidade de outros horizontes, outras formas de luta. Arrisca. Em 1949 entra na clandestinidade e vai trabalhar na redacção do «Avante!» Acredita, no entanto, que será por pouco tempo. O seu desejo mais profundo é dedicar-se à investigação, procurando conciliá-la com a participação política. Ausculta o passar do tempo e vai lendo obras científicas. Lê muito obras científicas para não se desactualizar.


«Pensei que era uma suspensão na minha carreira, apenas isso. E lia imensas obras da minha especialidade que pedia aos camaradas que me arranjassem. Entretanto, uni-me ao homem que amava, tive um filho. Mas sempre aguardando o momento em que eu retomaria a carreira. Senti sempre e sinto a nostalgia de não seguir a vida da investigação científica.»

Na entrevista que dá a Helena Neves, não se inibe de falar da família e da vida clandestina: «O meu primeiro amor foi uma coisa muito complicada e simultaneamente uma coisa inesquecível. O primeiro amor... (...) A paixão viria mais tarde «e foi uma paixão à primeira vista. Olhei-o e pensei "Se não tiver mais ninguém, este há-de ser o meu companheiro"…» Sê-lo-ia. Durante anos. (...) «Queríamos ter um filho. Era um desejo partilhado. Era difícil economicamente, mas ousámos. Vivíamos privados de muita coisa mas porque, muitas vezes, estabelecíamos residência em zonas piscatórias ou agrícolas, sempre conseguíamos viver menos-mal. Recordo-me que numa das casas que tivemos, todos os dias passava um pescador a dar-nos peixe fresco só porque eu lhe dera umas calças velhas e uma camisola.»

2. Em 1957 no V Congresso do PCP é eleita membro suplente do Comité Central. Em 1959 é presa, abruptamente, e ficará presa desde Outubro de 1959 até Dezembro de 1969.


É logo nos primeiros dias de prisão, quando incomunicável, que Alda imagina a primeira história infantil, que termina já em liberdade e publicará em 1977: «A viagem numa Gota de Água.» - Uma escrita que corresponde à recordação do filho e de outras crianças atravessando a sua memória. E que corresponde também à necessidade de sobreviver, sem desespero, à incomunicabilidade.


«Quando estávamos completamente isoladas, só tínhamos o pente, o prato, o púcaro e pão. Nem lápis, nem papel, nem caneta. Deixaram-me ficar o bâton, que me serviu para fazer na mesa um jogo de xadrez com bolinhas de pão. Cada pessoa tentava enfrentar esta situação de isolamento. Eu entrei no caminho da recriação. Trazia para a minha mente coisas que me afastassem da realidade». E vai exercitar essa fuga indefinidamente. Nos interrogatórios. Nas horas pesadas de solidão da cela.


«As primeiras 24 horas são as mais difíceis, depois espera-se tudo. Também nos interrogatórios, eu imaginava como seria o Minho socialista ou esta ou outra terra, e desligava do que eles estavam para lá a dizer. Eles apercebiam-se e batiam com a gaveta. Isto foi uma espécie de defesa. Eu ia para outro mundo e imaginava una história para crianças.


Quando saí da incomunicabilidade tinha a história toda escrita na minha cabeça e uma das primeiras coisas que fiz foi passar a papel aquelas ideias, imaginei o desenho. Isto foi o alimento intelectual para este período. Pois foi assim que comecei a imaginar histórias… Escrevi, então, "A viagem numa Gota de Água". Quanto à outra, "A Viagem numa Flor", quando saí da cadeia já a tinha mais ou menos escrita, mas só depois é que a concluí.»


E na prisão, ao longo desses longos dez anos, Alda faz muitas amizades nas companheiras.

«Estive com várias amigas durante muitos anos – a Sofia Ferreira, Ivone Dias Lourenço, Maria da Piedade, Aida Paula, Matilde Bento, Maria Luísa Costa Dias e tantas outras. Passámos por várias situações. Houve salas com beliches (10 ou 12 pessoas) e outras menores. Dividíamos o dia em duas partes. De manhã levantávamo-nos e tínhamos de correr para tomar o banho quente (com o tempo contado e só uma por casa de banho). A inspecção e a contagem eram às 8H. Recebíamos um jornal diário – o Século – e líamos em colectivo. À volta da mesa fazíamos os nossos trabalhos. Fiz então as camisolas todas do meu filho, saias para a minha mãe, pegas para a cozinha, essas coisas… A Ivone fazia bonecas, caixas e outras coisas interessantes. Elas foram-me ensinando. A visita era às 10H, em geral de meia hora. Depois trocávamos as notícias… que não eram muitas pois a vigilância era muito grande. Almoçávamos. Repousávamos. E retomávamos o trabalho»


«Na prisão retiraram-me os melhores anos da minha vida. Irreversivelmente. As pessoas mudavam o carácter. Aquilo tinha tudo um efeito destruidor. As celas mediam 4m por 4m, contando com a casa de banho. Nas salas grandes fazíamos teatro, caricaturávamo-nos umas às outras, na brincadeira. Tínhamos direito a meia hora de gira-discos. A mim proibiram-me de ouvir uma sinfonia porque era tocada pela orquestra de Leninegrado. Os nossos tempos livres tinham grandes animadoras, cantava-se o fado. E cantigas de infância até!


O tempo tem uma contagem conforme se vive mais ou menos os acontecimentos. Ao fim de cinco anos de cadeia deixamos de ter a noção dos dias. O tempo deixa de contar. A sensação de sair em liberdade sozinha foi horrível. Eles tinham dito que eu saía e eu disse ao meu irmão para estar lá à minha espera. Anteciparam 24 horas e sai só, com duas malas grandes, num mundo que tinha mudado tanto. À porta da António Maria Cardoso foi horrível, não podia com as malas. Meti-me no eléctrico até à Rua do Ouro. Aí, meti-me num táxi e disse ao homem para me levar a Alcântara, ao Largo do Calvário. Quando saí tinha dificuldade em andar. Lembro-me de ir na rua com o meu filho e parecia-me ter um tapete rolante que me levava a cair. Fez-me muita impressão ver as pessoas juntas num eléctrico, num autocarro. Sentia as pessoas com um ar muito triste. O primeiro filme que fui ver o "Romeu e Julieta". Quando veio o intervalo e vi todas as pessoas juntas, fiquei agoniada e vomitei o jantar todo e tive de me vir embora.


A vertigem dos espaços abertos. Sem grades. E o roçar da gente que vai ao nosso lado ou atrás de nós e passa à frente, e não é, afinal, um inimigo, como temíamos no coração feito pássaro de susto. Mas pode ser também a inocência no rosto apenas máscara, disfarce, armadilha. A maior partida não foi o amor que ma pregou, mas sim o fascismo. Se um homem andava atrás de mim, pensava logo que era PIDE.»
Em liberdade condicional, mas constantemente vigiada e perseguida, Alda Nogueira voltou à militância, e encontrava-se na Bélgica com o estatuto de refugiada política aquando do 25 de Abril de 1974.


3. Depois do 25 de Abril foi também no combate pela libertação da mulher que se moveu – e fez mover outras mulheres – com paixão e empenhamento constantes. Colaborou no Suplemento "A Mulher" do Diário.

Publicou os livros infantis escritos ou imaginados na prisão: "Viagem numa Gota de Água" e "Viagem numa Flor" e "As coisas também se zangam".

«Considero-me feliz e realizada, embora haja lacunas. Há aspectos em que fui defraudada, mas quem não foi, quem de nós que vivemos a maior parte da nossa vida sob o fascismo? Como mãe, o meu filho compensa-me do que eu sonharia. Como mulher, guarda recordações inesquecíveis. Descobri coisas que nem sequer pensava ser possível descobrir. Trabalhei e conheci pessoas extraordinárias.
Penso que só numa sociedade em que todos tenham acesso a tudo, a mulher poderá acabar com as discriminações. É um processo lento e não compensatório. Há problemas que não vão estar resolvidos tão cedo. Estou metida neste processo, não verei o seu fim, mas a minha preocupação é dar a conhecer às jovens de hoje, o que as mulheres fizeram. E tanto que foi!»

4. Foi deputada à Assembleia Constituinte de 1975 e eleita para a Assembleia da República em 1976, onde permaneceu até 1986.
Membro do C.C. do PCP e deputada de 1975 a 1985. Presidente da Comissão Parlamentar da Condição Feminina de 1983 a 1985, Maria Alda Nogueira permaneceu activa, interveniente, inquieta.


Para além de ter exercido o cargo de Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PCP durante 12 anos, integrou também várias comissões parlamentares.


Em 1988 foi condecorada com a Ordem da Liberdade pelo Presidente da República. Em 1987 recebeu a Distinção de Honra do Movimento Democrático de Mulheres.
Faleceu em 5 de Março de 1998. Entre as numerosas personalidades que estiveram presentes nas cerimónias fúnebres, no cemitério do Alto de S. João, encontrava-se o Presidente da República, Jorge Sampaio.

Helena Pato

Biografia escrita a partir de uma entrevista dada a Helena Neves
- http://ocastendo.blogs.sapo.pt/2008/03/
- http://www.parlamento.pt/VisitaParlamento/Paginas/BiogAldaNogueira.aspx
- http://silenciosememorias.blogspot.pt/2015/03/0946-alda-nogueira-i.html

terça-feira, 8 de setembro de 2020

HUMBERTO LOPES (1918 – 1984)

HUMBERTO LOPES (1918 – 1984)

Uma personalidade invulgar com uma vida inteiramente dedicada à luta pela Liberdade e pela Democracia. Um antifascista que se destacou nos combates contra a Ditadura, pelo seu carácter, dinamismo, cultura e determinação. Preso e julgado em Tribunal Plenário inúmeras vezes, esteve no Forte de Peniche durante anos. Exerceu a advocacia em Santarém e defendeu presos políticos nos Tribunais Plenários.

1. Humberto Pereira Dinis Lopes nasceu em Santarém, a 17 de Outubro de 1919 e faleceu a 23 de Novembro de 1984. Era filho de Humberto d’Amorim Diniz Lopes e de Maria Judith Martins Pereira Diniz Lopes. [Com 21 anos, o seu pai morreu e a mãe teve de educar sozinha os três filhos, Joaquim, António e Humberto, no difícil período do pós-Guerra Civil de Espanha e início da II Guerra Mundial]. Humberto Lopes fez o ensino secundário em Santarém e aos 14 anos já se manifestava contra a Ditadura do Estado Novo. Adere ao Partido Comunista em 1942 e, a partir daí, vai ter intensa actividade clandestina, embora vivesse na legalidade. Em 1943 concluiu o curso de direito na Universidade de Lisboa e, ainda no princípio da década, casou-se com Arminda Santos Soares, irmã de Pedro Soares (1). Fez estágio no escritório do advogado Manuel Ginestal Machado e, em Novembro de 1943, era já o delegado interino do Procurador da República, em Santarém. No início da década de 40 tinha contactos com Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol e Pedro Soares. Pouco antes de terminar a licenciatura, em 1942, começou a militar no Partido Comunista e foi destacado para criar o comité local do partido, em Santarém (2). A fim de executar essa tarefa organizativa, Humberto Lopes passou a integrar diversas colectividades escalabitanas tornando-se sócio de agremiações desportivas e recreativas em meios operários, na perspectiva do aliciamento e recrutamento para o PCP. Chegou a ser dirigente de algumas delas e a presidir a júris de concursos. Foi dirigente do Club Literário, do Orfeão e do Grupo de Coordenação que ajudou a fundar em 1944. Entre 1943 e 1946, presidiu à Comissão Executiva do Concurso Literário Ribatejano em que participaram colectividades de Santarém. Em 1944, empenhou-se, com Arminda Soares, na criação do Club Literário Guilherme de Azevedo e do Grupo Pró-Cultura dos Empregados no Comércio para fundar o primeiro jardim-de-infância em Santarém (um projecto pioneiro que durou apenas três meses).

Em Maio de 1945, começou a advogar em Santarém. Era então membro do MUD e foi encarregado de estabelecer os contactos com a comissão concelhia de Rio Maior. Todavia, em 1 de Junho de 1946 foi preso, acusado de distribuir propaganda subversiva e de pertencer ao comité regional do “Médio Ribatejo” do Partido Comunista Português, usando o pseudónimo “Júlio”. Foi libertado do Aljube a 14 de Outubro de 1946 mediante o pagamento de avultada fiança de 30 mil escudos. Ainda participou em diversas iniciativas, nas quais exprimiu as suas preocupações com os problemas do Ribatejo (3), mas a 13 de Janeiro de 1948 foi julgado em Tribunal Plenário e condenado a 10 meses de prisão correccional, que cumpriu no Forte de Peniche, de onde foi libertado a 13 de Julho de 1949.

Em 1950, Humberto Lopes participou como testemunha no julgamento de Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura e José Morgado, membros do Movimento Nacional Democrático. Em 1952, foi preso juntamente com os advogados Lino Lima e Carlos Cal Brandão “por ter requerido, num abaixo-assinado dirigido ao Director dos Serviços Prisionais, a tomada de “medidas adequadas para normalizar a situação existente, procedendo-se a um amplo e rigoroso inquérito”, sobre a greve dos presos na Cadeia de Peniche em Dezembro desse ano (4). [O ministro da Justiça, Cavaleiro Ferreira, acusou os advogados de abusarem da sua profissão para «fins inconfessáveis» e por tentarem injuriar as autoridades]. Libertado de Caxias um mês depois, volta a ser preso em Fevereiro de 1953 e, após um período passado nos cárceres do Aljube e Caxias (chegando a dar entrada no Hospital de S. José), é levado, uma vez mais, a julgamento no Tribunal Plenário, e libertado mediante caução, em 25 de Abril desse ano.

.2. Novamente preso em 13 de Novembro de 1953, passa então temporadas nas cadeias do Aljube, Caxias e Porto, até ser novamente julgado em Tribunal Plenário. Nesse julgamento, com início a 24 de Dezembro de 1953, Arminda Soares é presa «por desobediência» quando estava a assistir, é levada para os calabouços da PSP e julgada no Tribunal da Polícia; e o advogado de HL, Manuel João da Palma Carlos, acaba sendo transferido do banco da defesa para o banco dos réus. [O Tribunal Plenário moveu-lhe um processo e condenou-o sumariamente pela sua actuação no julgamento, considerando injuriosa a afirmação de que os juízes podiam julgar como lhes apetecesse com prova ou sem prova, mas tinham que registar em acta tudo quanto se passava na audiência]. O incidente teve dimensão internacional e recebeu manifestações de solidariedade na oposição democrática. O julgamento deste processo estende-se até 1955 e HL é absolvido e libertado no dia 25 de Março de 1955. Humberto Lopes havia sido sistematicamente castigado pela direcção da cadeia/PIDE, em 1953 e 1954, com punição de vários períodos de isolamento em “celas disciplinares”, por se recusar a prestar declarações sobre “factos ocorridos na sala onde se encontrava detido”, por escrever frases “desprimorosas” em cartas dirigidas ao director da cadeia, ou por revelar “espírito de rebeldia” e “desobediência”. [Em1954, na prisão de Caxias, HL havia sido alvo de um processo-crime, acusado de fazer parte da “organização prisional” do PCP, juntamente com outros militantes do partido como o cunhado Pedro Soares].

Em Março de 1957, HL foi um dos 72 advogados de Lisboa e do Porto que assinaram uma representação ao ministro da Presidência pedindo um «inquérito à PIDE».

De 1957 a 1960, vai passar sucessivamente pelos tribunais, em diversos processos, nomeadamente acusado de “actividades subversivas” praticadas dentro da própria prisão (5).

Volta a ser preso em Novembro de 1957 e é condenado no Tribunal Plenário de Lisboa a 2 anos e meio de prisão, seguidos de «medidas de segurança» períodos de 6 meses a 3 anos, prorrogáveis. Só foi libertado quase 6 anos depois, em Julho de 1963, mas com residência fixa em Santarém (única comarca em que podia advogar) e a obrigatoriedade de abstenção de qualquer actividade política. Durante o tempo em que esteve preso [acompanhou a fuga de Peniche de Álvaro Cunhal e Pedro Soares, com outros], escreveu vários trabalhos de carácter jurídico, alguns dos quais foram distinguidos com o Prémio Alves de Sá, da Ordem dos Advogados (em 1959, 1960 e 1961).

3. Em 1969, fez uma comunicação ao II Congresso Republicano de Aveiro, intitulada «Amnistia», na qual pretendia chamar a atenção para a necessidade de pôr termo à existência de presos políticos em Portugal; e apresentou uma tese intitulada «Justiça Republicana».

Em Maio de 1972, foi um dos subscritores de um manifesto intitulado «A Situação Política Portuguesa e o Fracasso do Reformismo», apreendido pela DGS e por isso interrogado.

Em 1973, Humberto Lopes pertenceu à Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática (pelo distrito de Santarém) e integrou a Comissão de Desenvolvimento Regional e Administração Local. Nesse ano foi candidato nas eleições para a Assembleia Nacional na lista da CDE, pelo círculo de Santarém.

Defendeu presos políticos no Tribunal Plenário de Lisboa.

Após o 25 de Abril de 1974, para além da sua actividade de advogado, Humberto Lopes foi dirigente do MDP e desempenhou cargos autárquicos e associativos. Integrou uma comissão da Feira do Ribatejo, a Mesa da Misericórdia e da Assembleia Distrital da Misericórdia de Santarém. Foi membro da delegação de Santarém da Ordem dos Advogados entre 1972 e 1974 e deixou vasta colaboração na revista da Ordem dos Advogados e no Jornal do Foro.

Recebeu o “prémio Alves de Sá” por livros jurídicos escritos enquanto se encontrava preso. Foi um colaborador regular do jornal Correio do Ribatejo, desde a década de 40 até ao seu falecimento.

O seu nome faz parte da Toponímia de Santarém (Avenida Dr. Humberto Lopes e Rua Dr. Humberto Lopes).

.Na década de 70, casou em segundas núpcias com Isabel Maria Beja Calado Diniz Lopes. Dessa união nasceram cinco filhos: Judite Isabel, Humberto Joaquim, António José, Rui Guilherme e Pedro Manuel.

Notas:

(1) A partir de 1946, a militância política de Humberto Lopes e do cunhado, Pedro Soares, levou-os várias vezes à prisão e Arminda Soares chegou a visitá-los ao mesmo tempo.

(2) Segundo o historiador João Madeira, no estudo “Os Engenheiros de Almas. O Partido Comunista e os Intelectuais (1996)”.

(3) Em Junho de 1947, no II Congresso do Ribatejo (Santarém) apresentou a tese “As Colectividades Desportivas de um Novo Tipo. Em Outubro desse ano, deslocou-se a Tomar para, no âmbito do mesmo Congresso, apresentar as teses: “O Problema do Analfabetismo”, “O Ensino Agrícola no Ribatejo” e “O Conhecimento da Terra Portuguesa, e em Especial do Ribatejo, através dos Livros Adoptados e dos Programas de Instrução Primário e do Liceu”.

(4) Levados ao Tribunal Plenário de Lisboa em Abril de 1950, foi o julgamento interrompido em consequência da promulgação de uma lei de amnistia.

(5) O que levou o seu advogado, Salgado Zenha, a afirmar que se era tão perigoso na cadeia o melhor seria soltá-lo.

Fontes:

- ANTT, Registo Geral de Presos nº 17 006

- Jornal Correio do Ribatejo, Teresa Lopes Moreira.

- Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973). Um Dicionário, Mário Matos e Lemos, Luís Reis Torgal, Coordenador, Colecção Parlamento, Edição da Assembleia da República.

- .https://ruascomhistoria.wordpress.com/2019/10/17/humberto-lopes-advogado-e-politico-se-fosse-vivo-faria-hoje-100-anos/

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Biografia da autoria de Helena Pato

Antifascistas da Resistência

Fotografia do espólio pessoal de Judite Lopes, filha de Humberto Lopes. Tirada em 1973, por ocasião do III Congresso da oposição democrática, contém uma relevante dedicatória a Isabel e aos filhos de ambos.