Fotografia de Hortênsia Dias editada a partir da sua
fotografia na ficha prisional, em 1962.
HORTÊNSIA DA SILVA (n. 1932)
Enfermeira antifascista, liderou, juntamente com a
irmã, um movimento de enfermeiras que, na década de 50, enfrentaram Salazar,
indo contra a proibição do casamento daquelas profissionais - imposta por força
de um decreto que impedia as mulheres casadas ou viúvas com filhos de exercerem
enfermagem nos hospitais civis. Activista do MUD Juvenil, bateu-se contra o
regime, tornando-se uma figura emblemática da luta na Resistência. Esteve presa
em Caxias por duas vezes.
1. Hortênsia Assunção Dias da Silva nasceu em Portimão
a 30 de Julho de 1932, filha de Francisco Dias da Silva e de Maria Assunção da
Silva. Era irmã de Isaura Assunção da Silva Borges Coelho (ver biografia em
Antifascistas da Resistência) e casou com Emílio Campos Lima.
Tirou o Curso de Enfermagem na Escola de Enfermagem
Artur Ravara e iniciou imediatamente funções de enfermagem nos Hospitais Civis,
em Lisboa. Em 1953, um ano depois de doze enfermeiras do Hospital Júlio de
Matos terem sido expulsas e impedidas de exercer a sua profissão em todo o país
por terem casado, Hortênsia e Isaura lançaram um movimento de contestação do
decreto-lei [nº 28794, de 1 de Julho de 1938], que impedia as mulheres casadas
de serem enfermeiras nos hospitais civis (1). Reclamavam, então, num
abaixo-assinado a Salazar, o fim da obrigatoriedade do celibato. Em 1954,
Hortênsia trabalhava no Hospital de São José quando foi presa pela PIDE. A irmã
havia sido presa em Novembro de 1953 e ela dera seguimento à luta, e entregara
o abaixo-assinado a Salazar (2). Detida a 1 de Maio de 1954, e conduzida para a
sede da PIDE, era acusada de actividades subversivas e ligação ao PCP. Manteve
que pertencia ao MUD Juvenil e que não prestava mais declarações, o que determinou
ser confrontada com pesados interrogatórios.
Ficou no Forte de Caxias até ser julgada em Tribunal
Plenário. Em 3 de Fevereiro de 1955, foi absolvida e libertada.
Voltou a ser presa em 30 de Novembro de 1962 e foi
libertada após alguns dias de detenção em Caxias. Em 1963, as enfermeiras
viram, finalmente, reconhecido o direito a casar (3). Hortênsia já tinha
casado, mas é nesse ano que o seu marido, o antifascista Emílio Campos Lima (
que havia estado preso em 1953) é obrigado ao exílio; parte para Paris, de onde
só regressa em 30 de Abril de 1974, no avião em que voltaram a Portugal quatro
dezenas de exilados políticos.
2. Logo após Abril de 1974, Hortênsia Campos Lima
publicou o livro «O Aniversário do m/P.B., Edições Sociais – Episódios da
Resistência Antifascista/ contados por quantos a viveram» (4). Deu testemunhos
da luta das enfermeiras e do MUD Juvenil, em várias ocasiões.
O Documentário “Processo-Crime 141/53- Enfermeiras no
Estado – Novo” (2000), de Susana de Sousa Dias, conta a história das duas irmãs
enfermeiras – Isaura Borges Coelho e Hortênsia Campos Lima - que contestaram a
obrigação do celibato. Tem sido exibido em diversas ocasiões, nomeadamente em
2012, no ciclo de cinema documental que decorreu na Fortaleza de Peniche, no
âmbito da temática da Liberdade.
No dia 8 de Março de 2007 teve lugar um colóquio
subordinado ao tema “A Mulher e a Resistência” na Biblioteca-Museu República e
Resistência; foi projectado o referido documentário e as duas irmãs estiveram
presentes e deram o seu testemunho sobre o cárcere e da vida na Resistência
antifascista.
No dia 8 de Março de 2018, teve lugar no Museu do
Aljube a sessão “A Luta das Enfermeiras contra a Ditadura”, que ainda pôde
contar com a presença de Isaura Borges Coelho (já doente).
Notas:
.
(1) O decreto-lei nº 28794, de 1 de Julho de 1938,
estabelecia no artigo 60 que «Nos lugares dos serviços de enfermagem e
domésticos (serviço interno) a preencher por pessoal feminino, só poderão de
futuro ser admitidas mulheres solteiras e viúvas, sem filhos, as quais serão
substituídas logo que deixem de verificar-se estas condições». A proibição do
casamento das enfermeiras só terminaria, depois de longa luta, com o decreto nº
44923, de Março de 1963.
Na verdade, a proibição do casamento das enfermeiras e
a luta pela sua revogação marcam 25 anos da história da enfermagem e dos
movimentos feministas durante o Estado Novo. Assente numa imagem de mulher
limitada ao trabalho doméstico, para quem a família representa o centro
exclusivo da sua vida, não é possível dissociar tal imposição legislativa da
definição dos papéis sexuais veiculado pelo Estado, bem como do postulado
tradicional da função cuidadora e maternal feminina. Além do impedimento do
trabalho feminino em certos sectores ou o acesso das mulheres a determinadas
profissões, foram ainda impostas restrições de índole vária a algumas
profissionais. Além disto, o trabalho nos hospitais era extremamente penoso,
com turnos de doze horas que, muito frequentemente, se prolongavam por 24
horas. As enfermeiras estavam ainda sujeitas a trinta velas de doze horas
consecutivas, apenas intervaladas por uma folga semanal. Estas condições de
trabalho inspiraram a luta das enfermeiras, nas décadas de 50 e 60, em defesa
da melhoria das condições de trabalho e dos cuidados de saúde nos hospitais.
.(2) Sua irmã Isaura Silva Borges Coelho esteve presa
durante 4 anos.
.
(3) A proibição do casamento das enfermeiras só
terminou, depois de longa luta, com a publicação do decreto nº 44923, de Março
de 1963.
.
(4) Título alusivo ao incidente ocorrido nos
interrogatórios, em que foi duramente confrontada com as inicias MPB (Meu
Primeiro Beijo), anotadas na sua agenda. A PIDE insistia, para obter a
confirmação de que essas letras seriam respeitantes a "Meu Partido Bolchevique".
.
Biografia em
co-autoria de Helena Pato e Maria João Dias
.
Fontes:
https://www.memorial2019.org/site/presos
http://www.acomuna.net/…/3908-o-celibato-das-enfermeiras-do…
https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4302087
https://www.delas.pt/susana-de.../conversa-delas/414383/
http://casacomum.org/cc/arquivos?set=e_3580/t_Documentos
https://www.facebook.com/FascismoNuncaMais/posts/830229767086404/
https://silenciosememorias.blogspot.com/.../2148-isaura...
Fotografia de Hortênsia Dias editada a partir da sua
fotografia na ficha prisional, em 1962.