(Desenhos da prisão Álvaro Cunhal)
Praça de Jorna
Soeiro Pereira
Gomes
Agosto de 1946
I
Entre os
camponeses de certa região,
designa-se por «praça»
o ajuntamento dos assalariados
rurais em
locais certos
e dia fixado, com
o fim de contratarem trabalho,
ou – como
usam dizer – tomarem patrão.
A «praça
de trabalho» ou
«praça de jorna» é pois
um mercado
de mão-de-obra, a que
vão assalariados
e proprietários rurais
(ou os seus
delegados: os capatazes),
e em que
os primeiros, como
vendedores, oferecem a sua força de trabalho, e os segundos,
como compradores,
oferecem o salário ou
jorna, que é a paga
de um dia
de trabalho (jornal).
Daí a designação de «praça de jorna» ou
«praça de trabalho»,
mais apropriada
do que «praça
de homens» como
já se tem chamado, visto
que não
são propriamente os homens
o que está à venda
no mercado, mas
sim a sua
força de trabalho,
isto é, o conjunto
das suas faculdades
físicas e intelectuais
utilizadas na produção.
Convém insistir
neste ponto, porquanto
aquela designação corresponde a uma corrente de opinião acerca
das «praças», ou
seja, de que elas
são ainda
restos do antigo
mercado de escravos
e, portanto, desumanas e inteiramente condenáveis. Em
certo artigo
doutrinário
escreveu-se que «as praças
de homens são,
na realidade, mercados
medievais da força
de trabalho».
A verdade é que, antigamente,
o homem do campo
não era
livre de dispor
da sua força
de trabalho: era
escravo ou
servo da gleba
e, como tal,
todo ele
considerado uma ferramenta ou simples
objecto de uso, que
o senhor podia vender ou trocar ou, quando escravo, destruir. Os antigos romanos
dividiam mesmo as forças
de produção em
3 categorias: os meios
de trabalho mudos
(os objectos), os meios de trabalho semi-mudos (o gado),
e os meios de trabalho
falantes (os escravos).
Ao passo que,
modernamente, dentro
da forma capitalista,
o que constitui a mercadoria
é a força de trabalho
do homem, e não
o próprio homem.
Este, até
certo ponto,
é livre de escolher
ou mudar de patrão ou ofício. Portanto,
se no mercado medieval
o homem passava das mãos
de um senhor
às de outro senhor,
de um vendedor
a um comprador,
na «praça» actual o trabalhador
rural vende a sua
força de trabalho
ao lavrador, por
um tempo
determinado (dia
ou semana)
e recebe em troca
um valor:
o salário.
Quer isto dizer que o trabalhador
recebe o justo valor
do seu trabalho?
De modo nenhum.
Quer dizer também que o trabalhador, tendo deixado de ser
escravo ou
servo, é agora
inteiramente livre?
De modo nenhum.
No sistema capitalista
de produção, os assalariados
estão dependentes
da classe que
possui os meios de produção
(proprietários da terra
e das máquinas, etc.), são obrigados, para não morrerem de fome,
a vender as suas
faculdades físicas
e intelectuais. E nesse «negócio» forçado,
os patrões aumentam o seu capital, enquanto os assalariados
desgastam a sua única
riqueza: a força
de trabalho.





