UM PARTIDO QUE ORGANIZOU CONGRESSOS NA CLANDESTINIDADE IA RECUAR FACE A NEO-FASCISTAS?
Texto de Álvaro Cunhal em 1946, no IV
Congresso do PCP
Camaradas:
Cerca de dois anos e meio passaram sobre
o I Congresso Ilegal do Partido. Estes dois anos e meio foram ricos de
acontecimentos.
Na altura do nosso I Congresso Ilegal,
os exércitos alemães, embora batidos pelo glorioso Exército Vermelho, ainda
martirizavam a terra soviética, ocupavam quase toda a Europa, a França, parte
da Itália. A Segunda Frente não fora ainda aberta. Nestes dois anos e meio, a
unidade dos Aliados fortaleceu-se na guerra, a Segunda Frente foi aberta, o
Exército Vermelho, sob a direcção superior do grande Stáline, prosseguiu as
suas ofensivas até esmagar a fera no seu próprio covil, até içar, em Berlim, a
bandeira da Vitória. A Alemanha hitleriana foi derrotada e com ela desapareceu
a ditadura fascista mais reaccionária e sangrenta, desapareceu a vanguarda da
reacção mundial. No Oriente, o militarismo japonês sucumbiu à ofensiva
conjugada das armas americanas e soviéticas. A vitória militar dos Aliados foi
uma vitória para todos os povos amantes da independência e da liberdade.
Na altura do I Congresso Ilegal, a Nova
Ordem hitleriana dominava ainda a Europa. Governos fantoches a soldo de Hitler
dominavam em todos os países reduzindo os seus próprios povos à mais feroz
escravatura. Nestes dois anos e meio, assistimos à libertação de quase toda a
Europa, ao julgamento e castigo dos principais traidores nacionais e criminosos
de guerra. Por toda a Europa desenvolvem-se jovens e progressivas democracias.
Na altura do I Congresso Ilegal, as
relações entre os Aliados fortaleciam-se para pôr termo à guerra com a
«rendição incondicional» do inimigo. Nestes dois anos e meio, as relações entre
os Aliados modificaram-se sensivelmente. Vencida a Alemanha hitleriana, os
interesses imperialistas manifestam-se de novo com toda a sua agudeza. A
política democrática da União Soviética, os anseios de liberdade e
independência dos países libertos da tirania fascista e dos países coloniais
defrontam-se com as ambições imperialistas e os interesses da reacção que se
reagrupa.
Na altura do I Congresso Ilegal, o regime
fascista português, prevendo a derrota inevitável da Alemanha, começava
operando abertamente a «reviravolta para o lado da Inglaterra» e começava a
receber apoio da Inglaterra. Nestes dois anos e meio, assistimos à consumação
dessa política com prejuízo dos interesses nacionais, vemos a democrática
Inglaterra estendendo a tábua de salvação ao fascismo peninsular, cúmplice de
Hitler.
Na altura do I Congresso Ilegal, o
fascismo salazarista levava a cabo uma política de miséria e de ruína, em
benefício dum punhado de famílias. Nestes dois anos e meio, o fascismo
salazarista ligou-se mais ainda a uma minoria monopolista, sacrificando o
bem-estar do povo e o desenvolvimento e progresso da nação aos interesses do
grande capital financeiro.
Na altura do I Congresso Ilegal, as
forças antifascistas nacionais encontravam-se ainda dispersas, divididas e
desorganizadas. Nestes dois anos e meio, assistimos à formação do Conselho
Nacional, à consolidação e alargamento da sua influência e organização, à
construção duma mais forte unidade entre todas as forças antifascistas e
patrióticas, à primeira grande expressão legal da unidade antifascista.
Na altura do I Congresso Ilegal,
vínhamos de viver as greves do Julho-Agosto e considerámo-las como o ponto de
partida para novas lutas do nosso povo contra o fascismo. Nestes dois anos e
meio, assistimos à multiplicação das lutas das classes trabalhadoras e do povo
em geral, à crescente consciência política das massas, à primeiras grandes
batalhas políticas contra a ditadura fascista.
Na altura do I Congresso Ilegal, o nosso
Partido vinha de sair confiante e fortalecido das greves de Julho-Agosto e
lançava as primeiras bases sólidas dum trabalho organizado. Nestes dois anos e
meio, assistimos ao engrandecimento do nosso Partido, ao alargamento e
consolidação da sua organização, à sua crescente ligação com as massas, ao
desenvolvimento dos seus quadros.
Camaradas:
Para fazer frente à política
antinacional da camarilha fascista entrincheirada no Poder, para fazer frente à
fome, à miséria, à ruína, ao terror, à incultura, foi o nosso Partido que
empreendeu a grande tarefa de estabelecer a UNIDADE DA NAÇÃO PORTUGUESA NA LUTA
PELO PÃO, PELA LIBERDADE E PELA INDEPENDÊNCIA. Contra as tradições de
rivalidades antigas e hábitos de inércia, o nosso Partido estendeu a mão a
todos os patriotas honrados, e empregou os seus esforços e energias para abater
as barreiras que separam bons portugueses de todas as tendências. Contra a
política de divisão fascista, o nosso Partido procurou unir a classe operária,
e unir as massas camponesas, e soldar a aliança dos operários e camponeses como
base da unidade da nação. Contra a desorganização das forças antifascistas, o
nosso Partido empreendeu a dura tarefa de organizar o Movimento de Unidade
Nacional. Contra esperanças e sonhos vãos e soluções estranhas à própria
actuação, o nosso Partido insistentemente indicou o único caminho para forjar a
unidade e o único caminho que pode conduzir à vitória sobre o fascismo — a
LUTA.
Seguindo esta justa orientação, o nosso
Partido alcançou importantes êxitos. Mas nem tudo foram vitórias. Na sua
actuação, o Partido cometeu erros e teve insucessos. Cabe a este Congresso
analisar a actividade do Partido nestes dois anos e meio, os lados positivos e
os lados negativos do trabalho do Partido, e tirar os necessários ensinamentos.
Andámos um importante caminho. Temos
diante de nós novas dificuldades e novas tarefas. Cabe a este Congresso definir
a orientação para o nosso trabalho futuro.
Camaradas:
O fascismo foi derrotado na guerra. Não
foi ainda derrotado na paz. A reacção mundial reagrupa-se e procura entravar a
marcha da história. O fascismo salazarista encontra novos apoios, manobra com a
democracia, apoia-se na violência e entrincheira-se no Poder. A grande tarefa
que se coloca ante a nação portuguesa é o derrubamento do fascismo salazarista
e a instauração duma ordem democrática que permita ao Povo escolher livremente
o seu destino e a edificação dum Portugal Livre, Independente, Próspero e
Feliz. A tarefa que se coloca ante o nosso Partido é empregar todos os seus
esforços e habilidade, toda a sua iniciativa e sacrifícios, na unidade e
mobilização da Nação Portuguesa para o derrubamento do fascismo. Cabe a este
Congresso definir
O CAMINHO PARA O DERRUBAMENTO DO
FASCISMO.